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segunda-feira, 4 de maio de 2009

A calmaria pode anteceder onda devastadora

Nos mercados financeiros, costuma-se dizer que pânicos devem ser usados como boas oportunidades de compra, enquanto "bear markets" (mercados com tendência de baixa) devem ser vendidos tão logo são identificados. Claro, a questão de um milhão de dólares é conseguir identificar corretamente ambos.

A diferença entre pânico e bear market não é o estrago causado nos preços, mas a duração e o impacto na psicologia dos agentes de mercado. Em 1987, o S&P 500 chegou a cair mais de 30% num único dia! Fatores técnicos, como os programas de "stop loss" (limitação de perdas) de muitos especuladores, contribuíram para este pânico. Quem teve coragem de comprar nesse momento, ganhou muito dinheiro depois.

Mas, durante os "bear markets", a entrada prematura pode ser fatal. Uma mudança radical no cenário pode levar anos até ser alterada novamente. O estouro de uma bolha especulativa pode demandar muitos meses de ajustes dolorosos. Durante esta fase de limpeza dos excessos da bonança, ocorrem recuperações nos mercados que podem iludir os mais otimistas. Saber quando se está diante de um "bear market" rali, ou quando uma nova fase de otimismo sustentável começou, faz toda a diferença no resultado. Acertar as viradas dos mercados é praticamente impossível. Mas muitos investidores acabam enganados pelas falsas viradas, fases de acelerada recuperação dos ativos durante um cenário ainda desfavorável. Agem como os pescadores no filme "The Perfect Storm", que comemoram a calmaria que antecede a onda devastadora e fatal.

O passado nunca é um guia perfeito para o futuro, que é sempre incerto. Mas ignorar totalmente as lições do passado pode ser o caminho mais rápido para a desgraça. Com isto em mente, pode ser útil observar alguns famosos "bear markets" para saber o que ocorreu durante estas épocas difíceis. Selecionei cinco casos conhecidos:

1) Entre 1929 e 1932, no auge da Grande Depressão, o Dow Jones perdeu mais de 90% do seu valor. Nesse período, ocorreram pelo menos cinco fases de recuperação, com altas, que foram de 20% a 40%;

2) Entre 1989 e 1992, com o estouro da bolha japonesa, o Nikkei perdeu mais de 60% do seu valor. Durante esse ajuste, ocorreram três grandes altas de 20% a 30%. Desde 1989 até hoje, o Nikkei já perdeu mais de 75% de valor. Isso não impediu que houvesse vários ralis dentro do grande "bear market". Foram pelo menos seis grandes fases de recuperação, com uma valorização de até 140% num dos casos. Mas atualmente, o índice japonês de ações ainda vale apenas 23% do que valia no seu pico de 1989;

3) Entre 1994 e 1997, o Kospi coreano perdeu mais de 85% de seu valor em dólar durante a famosa crise asiática. Enquanto as ações eram praticamente dizimadas, ocorreram pelo menos quatro fases de recuperação, com altas entre 20% e 30%, sendo que o índice chegou a dobrar de valor em 1997, partindo de um fundo intermediário, apenas para fazer um novo fundo depois;

4) Entre 1997 e 2002, o Ibovespa se desvalorizou mais de 80% em dólar. Mas, naquele período, ocorreram pelo menos quatro recuperações fortes, sendo que em uma delas o índice dobrou de valor;

5) Entre 2000 e 2002, a bolha da internet estourou e a Nasdaq caiu mais de 80%. No entanto, três fases de recuperação de quase 50% ocorreram no período.

Em resumo, há muita volatilidade durante os grandes "bear markets". Quando a espinha dorsal de um "bull market" (mercado com tendência de alta) se quebra e os mercados entram numa fase de longo pessimismo e ajuste, o ponto da virada definitiva pode levar bastante tempo para chegar. Isso não quer dizer que várias fases de recuperação serão inexistentes. Como fica claro nos exemplos, pode ser justamente o contrário. Expressivas altas podem coexistir com grandes e duradouros "bear markets". Um bêbado em ressaca pode ter espasmos de euforia.

Para quem possui habilidades de trader e deseja surfar essas ondas de forma oportunista, é possível ganhar muito dinheiro com esses ralis baixistas. O perigo maior é quando o investidor passa a acreditar que o pior já passou e que está diante de uma importante virada sustentável de longo prazo, enquanto está apenas verificando uma recuperação dentro de um mercado ainda negativo. Nesse caso, é provável que ele aumente suas apostas justamente no momento em que deveria estar vendendo e reduzindo exposição.

Afinal, nos "bull markets", deve-se comprar qualquer realização ("buy the dips"). Mas, nos "bear markets", deve-se vender qualquer recuperação ("sell the rallies"). O complicado é conseguir identificar quando é um e quando é outro. Eis o grande desafio!

Matéria de Rodrigo Constantino - Economista e Gestor de recursos

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Tudo sobre a Crise - Ótimo

Ola pessoal,

Para quem gostaria de saber mais detalhadamente sobre a crise, estou postando um link de uma matéria feita pela revista Época com 38 perguntas sobre a crise, as perguntas variam de "onde começou, se compara a crise de 1929, duração, demissões e até se alguém irá preso (adorei essa pergunta).
Como a matéria é muito extensa vou mostrar aqui as perguntas feitas e colocar o link para quem quiser ler. Vale a pena, é muito boa, a revista Época como sempre fazendo ótimo trabalho.

1. Como a crise começou?
2. Por que ela é tão grave?
3. Qual é o tamanho da crise?
4. Qual será seu custo?
5. Faz sentido comparar esta crise com a de 1929?
6. Quanto tempo ela vai durar?
7. Qual é o efeito da globalização?
8. Qual será o efeito no Brasil?
9. Haverá muito estrago?
10. Por que o Brasil está mais protegido hoje?
11. O que é preciso fazer para resolver a crise?
12. Qual é a lógica do plano de salvamento americano?
13. Ele vai acabar com a crise?
14. Por que houve tamanha resistência à aprovação do pacote?
15. O plano americano é igual ao Proer brasileiro?
16. Por que alguns bancos são socorridos e outros não?
17. Será que mais bancos ainda vão quebrar lá fora?
18. Quem ganhou e quem perdeu com a crise?
19. Por que os bancos emprestavam dinheiro a quem não podia pagar?
20. O mercado de capitais tinha se transformado em fonte de recursos para as empresas brasileiras. E agora?
21. As empresas vão manter seus projetos de investimento no Brasil?
22. As exportações serão prejudicadas?
23. Por que o dólar subiu tanto? É hora de comprar?
24. Qual será o impacto da crise na inflação?
25. As empresas vão demitir?
26. O que devo fazer com meus investimentos agora?
27. Quando a Bolsa voltará a subir?
28. Como ficam os juros?
29. O ouro não é uma boa opção nos momentos de crise?
30. Como ficam minhas dívidas?
31. Os bancos continuarão a financiar as compras de casas e carros?
32. Quem é o culpado pela crise?
33. Alguém vai para a cadeia?
34. A crise poderia ter sido evitada?
35. O sistema financeiro precisa ser mais regulado?
36. Quem vai pagar pelos prejuízos?
37. Essa crise pode mesmo significar o fim da hegemonia americana?
38. O que vai mudar no mundo depois da crise?

Bom, espero que leiam e aproveitem.
Abraços

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

1929 e 2008 "Semelhanças sobre a crise financeira"

Olá,

Esta matéria é de abril/maio de 2008 falando sobre a crise de 28 e a que estamos passando atualmente. É interessante e no mínimo cultural para entendermos de um assunto que estudamos na escola.

Segue matéria:

Entre 1929 e 2008, semelhanças e diferenças

Analistas divergem se crise financeira nos EUA é comparável à quebra da bolsa que precedeu Grande Depressão

Com os desdobramentos da crise financeira americana cada vez mais evidentes nos dados de produção e emprego dos Estados Unidos, virou lugar-comum entre analistas comparar a turbulência atual com a forte queda da bolsa de valores em 1929, que precedeu a Grande Depressão dos anos 1930. Até mesmo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em documento reservado obtido por agências de notícias na semana passada, fez essa comparação, argumentando que esta é a maior crise econômica dos EUA desde 1929.

Mas este paralelo está longe de ser unanimidade. Enquanto alguns economistas enxergam semelhanças entre as turbulências atuais e as de 1929, outros vêem crises de origem e natureza completamente distintas. Sequer é consenso que a crise atual seja, como alega o FMI, a maior já enfrentada pelos EUA desde os anos 30 ¿ no pós II-Guerra Mundial e nos anos 70 a economia americana enfrentou severas recessões.

Os analistas concordam, porém, que a crise atual está muito longe de adquirir a magnitude da Grande Depressão. Depois de quedas recordes na Bolsa de Nova York em 1929, cerca de dez mil bancos quebraram na década de 30. A depressão econômica levou um quarto dos americanos ao desemprego e teve efeitos no mundo inteiro.

A linha mestra é parecida

Para Aloisio Araújo, da Fundação Getulio Vargas (FGV) e do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), há semelhanças entre 1929 e hoje. E esta é, sim, a maior crise desde a década de 1930. Mas Araujo não vê riscos de que os EUA sofram um efeito tão devastador em sua economia quanto o da Grande Depressão.

É possível traçar semelhanças entre a crise atual e a de 1929?

ALOISIO ARAÚJO: À primeira vista, são crises muito diferentes. Em 1929, houve corrida bancária clássica, com quebradeira de bancos. Hoje, o ambiente financeiro é muito mais complexo. E os bancos acabaram assumindo certa responsabilidade pelos instrumentos financeiros que criaram (reconhecendo nos balanços os prejuízos com hipotecas de alto risco). A regulação evoluiu, não teve ninguém correndo para pegar dinheiro na boca do caixa.

Mas o Bear Stearns quase quebrou e sofreu uma corrida de credores.

ARAÚJO: O Bear Stearns é um banco de investimentos. Talvez tenha havido uma corrida de grandes credores. Mas não se vê fila de pequenos clientes na porta dos bancos como em 1929. Hoje, nos EUA, todos têm seguro de depósito, algo que foi criado justamente após a crise de 1929. É um mecanismo semelhante com o que temos aqui no Brasil no Fundo Garantidor de Crédito no Brasil (FGC, que cobre até R$60 mil em depósitos à vista e poupança dos correntistas caso o banco quebre).

Os efeitos na economia da crise atual são parecidos com o que houve em 1929?

ARAÚJO: A linha mestra de contração de crédito, que leva a uma contração econômica, é parecida. Mas, se é verdade que esta é a maior crise desde 1929, sua magnitude não se compara com à da Grande Depressão. Seu efeito certamente não será tão devastador.

Em 1929, antes da crise nas bolsas, já havia sinais de desaquecimento econômico. Agora, a crise parece ter se iniciado no sistema financeiro. Isso é uma diferença?

ARAÚJO: Não dá para dizer se em 1929 foi uma crise de economia real ou financeira. As coisas ocorreram de forma concomitante. E, claramente, a corrida bancária agravou a situação econômica. Da mesma forma, alguns elementos da recessão americana de hoje não estão necessariamente associados à crise bancária. Os EUA vinham crescendo há muitos anos, era natural, pelos ciclos econômicos, algum freio. Havia ainda um processo de ganhos de produtividade, com os saltos tecnológicos, que pode ter chegado ao fim. E há desequilíbrios nos EUA, como o das contas externas.

Por que o senhor acredita, então, que a crise atual será mais suave?

ARAÚJO: As respostas à crise hoje são mais rápidas e na direção correta. As diferenças são maiores do que as semelhanças. Aprendeu-se muito com 1929, quando a primeira resposta foi no sentido errado, de restringir o mercado de crédito, porque não se compreendia seus efeitos multiplicadores na economia. Na crise atual, os bancos centrais agiram de maneira enérgica e rapidamente. Uma crítica que pode ser feita é que as autoridades não anteciparam os riscos dos novos instrumentos financeiros. Atuaram a posteriori, como uma lanterna na popa.

'Não há paralelo possível'
Corpo a Corpo - Reinaldo Gonçalves

Da Redação

Para Reinaldo Gonçalves, professor da UFRJ, a crise atual é de natureza completamente diversa da Grande Depressão. Ele avalia que esta sequer é a maior crise desde 1929, já que os EUA enfrentaram uma profunda recessão no pós-II Guerra Mundial e uma grave crise com o choques de petróleo da décadas de 1970.

O GLOBO: É possível traçar semelhanças entre a crise atual e a de 1929?

Reinaldo Gonçalves: São situações completamente diferentes, não há paralelo possível, nem de natureza nem de amplitude das crises. O que em 1929 foi conseqüência, hoje é causa. Naquela época, antes da queda nas bolsas, em meados dos anos 1920, já se anunciava uma crise na economia real. Havia um excesso de capacidade de produção, que nos anos de 1928 e 1929 provocou uma retração dos investimentos privados, levando o país à recessão. A queda nas bolsas veio depois e se caracterizou por uma crise bursátil, de mercado de capitais. E não uma crise financeira como se vê hoje.

Qual é a natureza da crise atual, então?

Gonçalves: Hoje há uma crise no sistema financeiro, que teve origem no setor imobiliário. Essa crise está levando a problemas no lado real da economia, porque os consumidores estão contraindo seus gastos. Mas, tão logo haja uma regularização do lado financeiro, o lado real da economia melhora. As crises mais profundas do capitalismo não têm origem no lado financeiro, e sim na economia real. O que importa é produção, renda e emprego.

As respostas à crise atual, então, são diferentes às políticas adotadas em 1929?

Gonçalves: Certamente. Em 1929, o governo a princípio se manteve apático, não houve políticas pró-ativas. E o New Deal (política do presidente Franklin Delano Roosevelt de fazer obras públicas para gerar empregos) apenas suavizou a crise. Ao contrário do que os keynesianos (defensores das idéias do economista britânico John Maynard Keynes que, em 1936, com base na experiências das políticas de Roosevelt, defendeu os gastos públicos como incentivo à economia) gostam de dizer, não foi o New Deal que tirou os EUA da crise. E sim os esforços pela entrada dos EUA na II Guerra Mundial. A economia americana ficou dez anos no buraco.

E hoje, qual será a saída para a crise?

GONÇALVES: A crise atual tem origem na desregulamentação excessiva do sistema financeiro. Em 1929, não havia isso. Pelo contrário, o Fed (Federal Reserve, banco central americano) havia sido criado em 1913. As medidas adotadas hoje, como a redução de juros, a injeção de crédito e o corte de impostos, são importantes, mas a crise atual só será solucionada com a re-regulamentação do mercado financeiro, política que foi anunciada apenas este mês (no pacote do secretário do Tesouro, Henry Paulson). Se a Guerra do Iraque tivesse começado agora, em vez de em 2003, com seus US$ 500 bilhões em gastos militares, haveria um estímulo econômico adicional.

O senhor acredita que a crise atual é a maior que os EUA já enfrentaram desde 1929? GONÇALVES: De forma alguma. Os EUA enfrentaram grave recessão no pós-II Guerra Mundial. Depois houve a crise dos anos 1970, com o primeiro choque do petróleo. Foram crises muito mais intensas.

As Imagens das Crises
Famílias desempregadas

Da Redação

Crise de 1929: A crise não distinguiu a elite dos mais pobres. O desemprego atingiu quase um quarto dos americanos, levando famílias inteiras, incluindo crianças (foto menor) a buscar trabalho. Mais de mil bancos fecharam em 1930 e houve forte desvalorização de preços de bens de consumo. Cenas como a venda de carros a US$ 100 (foto maior) eram comuns

Operadores, a nova cara da turbulência

Crise das Hipotecas: Com origem no setor imobiliário, um dos primeiros efeitos da crise foram os arrestos de imóveis de mutuários inadimplentes (ao lado em baixo). Logo a turbulência afetou o setor de crédito, e bancos registraram perdas bilionárias, levando operadores da Bolsa ao desespero, a nova cara da crise

Fonte: JORNAL O GLOBO

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A bolsa virou mico? Revista Exame sobre a bovespa

Ola pessoal,

Este é um artigo da revista exame sobre a bovespa. É um pouco longo mais vale muito a pena ser lido.

Mais de 12 trilhões de dólares evaporaram dos mercados de capitais em todo o mundo nos últimos 12 meses.
Na Bovespa, a tensão não pára de subir.
A bolsa virou mico?
Não. Mas parece ser o fim da exuberância irracional — e isso é bom...


Evelson de Freitas
Por Eduardo Salgado e Giuliana Napolitano.


Grandes ganhos e enormes perdas fazem parte da natureza do mercado financeiro
e — mais especificamente — das bolsas de valores.
Sempre foi assim. E provavelmente sempre será, ainda que a maioria dos
mortais não possa prevê-los com precisão.

No início do século 18, o físico Isaac Newton, um dos maiores gênios matemáticos que a humanidade já produziu, foi uma das vítimas da quebra de expectativas que o mercado, ciclo após ciclo, gera.
Newton foi um dos investidores da South Sea Company, empresa britânica que prometia grandes lucros com a exploração comercial dos mares do Atlântico Sul.
Parecia perfeito, num momento em que o comércio internacional ganhava força.
Mas os planos não se concretizaram, o negócio tornou-se inviável, os investidores correram para vender suas participações e a South Sea quebrou.
O acontecimento é descrito hoje como uma das primeiras bolhas financeiras da história.
Newton foi engolido por ela e definiu sua frustração com a imprevisibilidade do mercado da seguinte forma: “Posso calcular o movimento das estrelas, mas não a loucura dos homens”.

Desde então, o capitalismo produziu, em intervalos irregulares, uma série de bolhas:
o crash de 1929,a crise imobiliária japonesa nos anos 80, a exuberância irracional da internet na década de 90 e — a última delas — o chamado subprime americano, uma seqüência de perdas que começou com empréstimos imobiliários sem garantias e se espalhou por todo o sistema financeiro dos Estados Unidos.
A crise do subprime completa agora um ano sem que se possa prever até quando “a loucura dos homens” vai gerar estragos e qual a dimensão exata deles.
Estamos atravessando um período de expiação, e é nas bolsas de todo o mundo que suas conseqüências se manifestam mais rapidamente.

Nos últimos 12 meses, 12 trilhões de dólares evaporaram dos mercados de capitais ao redor do mundo.
Assustados e ansiosos para cobrir prejuízos em outros negócios, grandes investidores deixam os pregões, vendendo suas ações e derrubando as cotações.
Isso inclui a Bovespa, a incensada bolsa brasileira.

Durante todo este ano de turbulência internacional, a Bovespa comportou-se exemplarmente.
Foi um dos poucos pregões do mundo a acumular uma alta — 10% em 12 meses.
Mas seria ingenuidade achar que os investidores brasileiros — abençoados por um período de expansão na economia interna e com a valorização do preço das commodities agrícolas e minerais — passariam incólumes aos sucessivos maus resultados das instituições financeiras americanas, à ameaça de aumento da inflação e à desaceleração do crescimento mundial.

Desde o início do mês de junho, o Índice Bovespa, que mede o desempenho das ações mais negociadas, caiu 18% — foi o período mais longo de quedas desde 2002.
No acumulado de 2008, até o fechamento desta edição, as perdas eram de 6,6%.

Novas ofertas de ações tornaram-se raras — foram três desde o começo deste ano.
E cerca de 70% das empresas que abriram o capital nos últimos quatro anos valem hoje menos do que valiam na época de seus IPOs.

Bem-vindo à vida como ela realmente é.
A exuberância demonstrada pela bolsa brasileira nos últimos anos pode ter feito crer aos 2,5 milhões de investidores do país — entre aqueles que investem diretamente e os que aplicam por meio de fundos — que a trajetória do mercado aponta sempre para cima.
Mas essa não é a ordem natural das coisas.
“Os altos e baixos do mercado são comuns, mas muitos investidores pareciam ter se esquecido desse detalhe”, diz o americano Jim Rogers, ex-sócio do investidor húngaro George Soros e dono da empresa de investimentos Rogers Holdings.
“Agora estamos em pleno momento de depuração.” E isso não é necessariamente ruim.

O principal alimento da turbulência recente na bolsa brasileira é o histórico
de más notícias vindas dos Estados Unidos.
“Cresce a percepção de que não haverá uma solução rápida e fácil para essa situação”, diz o americano Robert “Bear” Arnott, sócio da consultoria financeira Research Affiliates.

Dias atrás, o IndyMac, banco com nome de lanchonete e uma carteira carregada de hipotecas podres, quebrou na Califórnia.
As próximas semanas e meses prometem surtos de grandes emoções.
O governo americano quer colocar em prática o plano de salvamento das companhias Fannie Mae e Freddie Mac, que correm o risco de quebrar. Juntas, elas respondem por quase metade dos 12 trilhões de dólares de hipotecas nos Estados Unidos.
É improvável que a falência se concretize, mas a má situação dessas companhias é mais uma demonstração de fragilidade na maior economia do mundo, responsável por cerca de 30% do consumo do planeta.
E isso já é suficiente para despertar — como diria Newton — o medo e a loucura dos homens.
“Fannie e Freddie são parte do problema, mas, mesmo depois que se encontre
uma solução para essas empresas, muito mais sangue será derramado”, diz
Kenneth Rogoff, professor de economia da Universidade Harvard e ex-economista-
chefe do FMI.
Em setembro, três grandes bancos de investimento publicarão seus resultados
trimestrais — entre eles o Lehman Brothers, um dos que estão em situação mais
vulnerável.
Ao longo desse caminho, as bolsas devem continuar reagindo aos anúncios do desempenho da economia americana e às oscilações na cotação do petróleo.

É nesses momentos que o investidor se torna mais seletivo, premia as ações
de empresas consideradas sólidas e foge do risco.
Muito da performance razoável da Bovespa ante outros pregões do mundo
aconteceu por causa da atração que papéis de empresas como Vale e Petrobras
exercem.
Juntas, as ações das duas companhias representam 30% de todo o volume
transacionado na Bovespa.
Quando os preços dessas ações sobem puxados pelo boom das commodities — como
tem sido o caso nos últimos tempos devido à crescente demanda de China e
Índia —, o Índice Bovespa acompanha o movimento.
A cada anúncio de descoberta de petróleo da Petrobras, aumenta o apetite dos
investidores pelos papéis da estatal.
Além disso, a pulverização no número de investidores ajudou.
Hoje, cerca de 500 000 brasileiros aplicam diretamente na bolsa.
“Existe uma forte correlação entre o aumento da riqueza de um país e a
entrada de investidores locais na bolsa de valores”, diz Jim O’Neill, chefe
do departamento de pesquisas econômicas do banco Goldman Sachs e autor do
termo Bric, que designa o grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia
e China.
E, mais do que uma mudança quantitativa, houve um avanço em termos de
qualidade.
Uma parcela considerável desses investidores tem seguido o célebre conselho
de John Templeton, um dos maiores financistas americanos: o melhor momento
para investir em ações é quando “o pessimismo está no auge”.
Nos últimos seis meses, investidores estrangeiros em fuga tiraram 6,7 bilhões

de reais em ações da Bovespa, enquanto aplicadores brasileiros colocaram os
mesmos 6,7 bilhões na bolsa, ajudando, assim, a diminuir o impacto da queda.

Essa tendência se manterá? É difícil dizer.

Mercados de ações funcionam, basicamente, movidos por expectativas e, nesse ponto, mesmo com a desaceleração da economia americana e global, as projeções para o Brasil são positivas.
Economistas do FMI que acabaram de atualizar suas previsões estimam que o
Brasil crescerá 4,9% neste ano e 4% no ano que vem.
Apesar da perspectiva de queda no ritmo da expansão, a economia brasileira,
segundo o FMI, deve ficar acima da média mundial.
Se essas previsões se materializarem, o país completará seis anos de
crescimento superior a 3%.
“Mesmo com o aumento da inflação e dos juros, a economia brasileira segue
robusta”, diz Zeina Latif, economista-chefe do banco Real.
Caso se confirme esse ambiente de crescimento econômico puxado por um mercado
interno aquecido e pela produção de commodities, aumenta a chance das
companhias de entregar os resultados prometidos aos investidores.

É graças a essa expectativa que a maioria dos analistas ainda acredita que a
bolsa brasileira sairá dos atuais 60 000 pontos para fechar o ano com 80 000.

Mesmo em meio à crise — e com o segmento de IPOs e ofertas de ações praticamente parado —, as empresas brasileiras vêm conseguindo se financiar lançando mão de outros mecanismos do mercado de capitais.
As emissões de títulos de dívida somaram 17 bilhões de reais no primeiro
semestre deste ano, quase 30% mais que no mesmo período de 2007, por exemplo.
“Isso não ocorria no passado, quando os mercados costumavam ficar fechados
para companhias sediadas no Brasil”, diz o advogado José Eduardo Carneiro
Queiroz, sócio responsável por mercado de capitais do escritório Mattos Filho, de São Paulo.
Há quem aposte que, além de sustentar a expansão das empresas para fazer
frente à demanda crescente do mercado interno, esses recursos poderão ser
utilizados para promover uma nova onda de internacionalização — dessa vez,
tendo os Estados Unidos como alvo preferencial.
“É um momento único: as empresas americanas estão baratas em razão da
crise e da desvalorização do dólar, e as companhias brasileiras estão sólidas”,
diz Charlie Welsh, fundador da Mergermarket, empresa inglesa especializada em
estudos sobre fusões e aquisições.
Para ele, um exemplo desse movimento foi a compra da cervejaria Anheuser-
Busch pela belgo-brasileira InBev.

Apesar do otimismo, é possível que esse prognóstico positivo sobre o futuro
da economia e da bolsa brasileira sofra alterações.
Quedas bruscas no preço das commodities e uma drástica piora do quadro
econômico nos Estados Unidos são os principais temores.

Nos próximos meses, a economia americana viverá em meio a duas pressões
conflitantes.

“Por um lado, é preciso conter o crescimento para controlar a alta dos
preços, mas o desaquecimento não pode ser forte demais ou haverá recessão
mais adiante”, diz Vincent Reinhart, ex-diretor do Federal Reserve e atual
membro do American Enterprise Institute, de Washington.
Logo nos primeiros meses da crise, uma facção dos economistas achava que a
melhor imagem para descrever o futuro da economia americana seria uma linha
em V (ou seja, a atividade cairia rapidamente e teria uma recuperação
igualmente veloz).
Hoje, com o aperto do crédito, os especialistas se dividem entre os que acham
que a atividade fará um traçado em U (queda, estabilidade em patamares baixos
e aumento firme da atividade) e os que apostam num W (períodos de oscilações
bruscas e radicais).
Ninguém consegue dizer com segurança se já se chegou ao fundo do poço, e
não está descartado o cenário de estagflação, a conjunção perversa de
estagnação econômica com inflação, cenário que se concretizou pela última vez na
década de 70.
“A história é pontuada por momentos de expansão interrompidos por
períodos de rupturas”, diz Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York que foi assessor da Presidência durante o governo de Bill Clinton.
Quando cada um deles vai começar e terminar é algo que nem mesmo os grandes
gênios foram capazes, até agora, de prever.

Fonte: Revista Exame

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